Pesquisadores americanos publicaram na revista Nature Medicine um estudo que demonstrou
os efeitos maléficos do metabolismo da carnitina pela
microbiota intestinal na promoção da aterosclerose.
Para os autores, o teor de colesterol e gordura saturada
presentes na carne vermelha não são suficientes para explicar a relação entre o
seu alto consumo e o risco no desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Por
isso, o objetivo do estudo foi investigar a relação entre a microbiota
intestinal e o metabolismo da carnitina no desenvolvimento da aterosclerose.
Os pesquisadores examinaram como as bactérias intestinais
convertem a L-carnitina em trimetilamina-N-óxido (TMAO), um composto associado
com o aumento no risco de desenvolver doenças cardiovasculares. Os experimentos
foram realizados com ratos de laboratório e em seres humanos onívoros,
vegetarianos e veganos, totalizando 2.595 indivíduos. Desse total, apenas um
grupo de voluntários (30 indivíduos entre os onívoros e 23 indivíduos entre
vegetarianos e vegans) foram avaliados amplamente por meio de questionário de
frequência alimentar e análises das fezes, plasma e urina.
Os vegans aceitaram consumir carne vermelha apenas para
participar desse estudo. Outro subconjunto de indivíduos ingeriram l-carnitina
(250 mg) por meio de suplementos (n= 5 de onívoros e n=5 de
vegans), sendo realizadas as mesmas análises após 10 minutos da ingestão.
Os pesquisadores observaram que os níveis plasmáticos
aumentados de L-carnitina foram associados com maior risco no desenvolvimento
de doenças cardiovasculares e seus principais incidentes (infarto do miocárdio,
acidente vascular cerebral ou morte), sendo essa relação encontrada apenas
entre os indivíduos com níveis plasmáticos elevados de TMAO simultaneamente.
Eles também descobriram que os níveis de TMAO eram muito menores entre
vegetarianos e vegans do que entre os onívoros. Mesmo depois de consumir uma
grande quantidade de carne, os vegans e vegetarianos não produziram níveis
significativos de TMAO, enquanto que os onívoros apresentaram altos níveis de
produção de TMAO.
A presença de determinadas bactérias nas fezes de seres
humanos foi associada à maior concentração plasmática de TMAO e maior consumo
de carne. Após os experimentos realizados em ratos, os pesquisadores
descobriram que a ingestão crônica de carnitina altera a composição da
microbiota intestinal, que propicia a síntese aumentada de TMAO e induz ao
desenvolvimento da aterosclerose. Em ratos do tipo germ-free, com ausência de bactérias intestinais, a suplementação
dietética com carnitina não aumentou os níveis de TMAO, não havendo
desenvolvimento da aterosclerose. Com esses achados, os autores sugerem que
bactérias intestinais, ao metabolizar a carnitina, contribuem para essa relação
entre o alto consumo de carne vermelha e a promoção da aterosclerose. Para os
pesquisadores, isso ocorreu devido ao papel do TMAO em alterar o metabolismo de
lipídios e colesterol, além de inibir o transporte reverso de colesterol, que
resulta em aumento do acúmulo de colesterol nas artérias.
“A descoberta da ligação entre a ingestão de L-carnitina,
composição da microbiota intestinal e o risco no desenvolvimento de doenças
cardiovasculares tem amplas implicações relacionadas com a saúde. Nossos
estudos revelam uma nova via que relaciona a ingestão de carne vermelha com a
patogênese da aterosclerose. O papel da microbiota intestinal nesta via sugere
novos potenciais alvos terapêuticos para a prevenção de doenças
cardiovasculares”, concluem os autores.
Referência(s)
Koeth RA, Wang Z, Levison BS, Buffa JA, Org E, Sheehy BT, et al. Intestinal microbiota metabolism of l-carnitine, a nutrient in red meat, promotes atherosclerosis. Nat Med. 2013 Apr 7. doi: 10.1038/nm.3145. [Epub ahead of print]
Koeth RA, Wang Z, Levison BS, Buffa JA, Org E, Sheehy BT, et al. Intestinal microbiota metabolism of l-carnitine, a nutrient in red meat, promotes atherosclerosis. Nat Med. 2013 Apr 7. doi: 10.1038/nm.3145. [Epub ahead of print]
